APRENDIZAGEM E MEMÓRIA – POWER POINT

Publicado em 17 de Setembro de 2011 por lrodg
Categorias: POWER POINTS

APRENDIZAGEM E MEMÓRIA

FICHA DE TRABALHO – O PROBLEMA DA CLONAGEM E O SEU IMPACTO PSICOLÓGICO

Publicado em 17 de Setembro de 2011 por lrodg
Categorias: FICHAS FORMATIVAS

FICHA DE TRABALHO

O PROBLEMA DA CLONAGEM HUMANA E O SEU ENQUADRAMENTO PSICOLÓGICO

Tema para debate: por que razão há pessoas que querem um clone de si mesmas? Quais serão as consequências psicológicas de, quando tecnicamente possível, houver clones de outros seres humanos?

Imaginemos que um casal, João e Isabel, decide ter um bebé através do processo da clonagem. João dá a célula somática da qual se retira o núcleo com o respectivo ADN. Isabel dá o óvulo cujo núcleo é esvaziado do seu ADN. Esse óvulo desnucleado recebe o núcleo retirado da célula somática de João. Forma-se um embrião que vai ser implantado no útero de Isabel.

Correndo tudo bem, ao fim de nove meses de gestação nasce uma criança, a que dão o nome de Miguel.

Quem é a mãe? Diremos que é a Isabel? Quem é o pai? É correcto dizer que é o João?

Não podemos dizer que a Isabel é a mãe biológica do Miguel porque este recebeu 46 cromossomas unicamente do João. Para Isabel ser a mãe biológica do Miguel teria de lhe dar os 23 cromossomas que todo e qualquer bebé normalmente recebe da mãe. Isabel deu à luz um clone do João, mas não é a sua mãe.

E o João será realmente o pai do Miguel? O Miguel recebeu de João 46 cromossomas. Estes constituem a herança genética que João recebeu dos seus pais biológicos, Alberto e Daniela. Como o ADN, o material genético do clone Miguel, resultou da união de um espermatozóide de Alberto e de um óvulo de  Daniela, então parece correcto concluir que os pais de João são os pais do clone Miguel. Uma vez que um clone é geneticamente idêntico a quem forneceu o material genético, os seus pais genéticos são os pais do João. Mas, assim sendo, João e Miguel são irmãos, irmãos geneticamente idênticos. Sem se aperceber disso e sem os seus progenitores o quererem também, João deu um filho aos seus pais.

Se Isabel não pode ser a mãe de Miguel porque não lhe deu os 23 cromossomas que toda a mãe biológica dá a um filho, também devemos concluir que João não é pai de Miguel porque lhe deu mais do que os 23 cromossomas que um pai naturalmente dá a um filho. Parece que Miguel só pode ter um pai se também tiver uma mãe. Uma família da qual faz parte um clone é um cenário muito estranho. Podemos perguntar como vai ser recebida a criança que, no sentido tradicional da palavra, não tem pai nem mãe. E será de todo impossível que, por volta dos vinte anos, o clone de João não desperte em Isabel sentimentos e desejos que ela experimentou por João?

 Este é um dos cenários que poderão surgir caso a clonagem humana for avante. Para debater o tema acima enunciado, realize uma pesquisa que lhe permita responder às seguintes questões:

1.O que é a clonagem? O que é um clone humano?

2.O que é a clonagem reprodutiva?

3. A clonagem reprodutiva retira aos indivíduos a sua identidade pessoal própria?

4. A clonagem reprodutiva irá perturbar de modo significativo as relações familiares?

Materiais de apoio para o debate

A – Video da National Geographic intitulado Clonagem.

 B – Sites na Internet

1.Ciência Viva – Projectos

http://www.cienciaviva.pt/projectos/genoma2003/materiais.asp

2. A clonagem de seres humanos deve ser proibida?

http://www.brasilescola.com/biologia/clonagem-de-seres-humanos.htm

3. A POLÉMICA DA IDENTIDADE PESSOAL E GENÉTICA DO SER CLONADO

http://br.monografias.com/trabalhos/oprin/oprin.shtml

4. Bioética e Clonagem.

http://www.sofi.com.br/node/249

5.Clonagem e vida humana: é possível avançar sem agredir?

http://www.cjf.jus.br/revista/numero16/mesaredonda34.pdf

6. Crítica: blog: Será a clonagem de seres humanos moralmente aceitável?

http://blog.criticanarede.com/2009/06/sera-clonagem-de-seres-humanos.html

7. Clonagem humana.

http://www.ufrgs.br/bioetica/clobrau.htm

8. Família de clones desestruturaria sociedade, diz cientista.

http://epoca.globo.com/nd/20020512ct_b.htm

Textos complementares

1

Prós e contras da clonagem

«A clonagem de seres vivos tem sido um vasto campo de experiências científicas há várias décadas, porém só chegou ao público em 1997, quando foi anunciada a primeira clonagem bem sucedida de um mamífero – a ovelha Dolly. Desde então, vários cientistas expressaram o objectivo de clonar um ser humano. Além da ovelha Dolly, muitos animais já foram clonados, tais como ratos, vacas, outras ovelhas e, recentemente, uma gata de estimação chamada Cc.

Alguns países sancionaram leis proibindo a clonagem de seres humanos. Porém, para os cientistas, as leis não são um impeditivo. Parece difícil impedir legalmente a clonagem de seres humanos.

Os custos de uma clonagem são bastante elevados. Porém recursos financeiros não faltam para o desenvolvimento desta tecnologia para obter fama e uma possível fortuna ou, por razões emocionais, para satisfazer o desejo de duplicar uma pessoa querida que está doente ou que já faleceu.

Aqueles que se opõem à clonagem humana afirmam que a raça humana está a tomar um caminho bastante perigoso e possivelmente irreversível que pode trazer graves consequências ao mundo. Lembram que a tecnologia de clonagem é ainda bastante pobre. A média de sucesso em experiências de clonagem é de apenas 3%. Muitos clones nascem defeituosos e morrem pouco depois do seu nascimento. Além disso, a duplicação de seres humanos implica com questões éticas e morais.

Neste artigo, explicaremos o processo de clonagem. Vamos também analisar alguns prós e contras da prática. Tentaremos ser objectivos e não defendermos qualquer ponto de vista – apenas apresentaremos argumentos sobre os possíveis benefícios e malefícios da clonagem humana.  O leitor deverá decidir se a clonagem de seres humanos deve ou não ser permitida.

 

A tecnologia de clonagem

Em Janeiro de 2001, um selecto grupo de cientistas liderado por Panayiotis Zavos, ex-professor da Universidade de Kentucky, e por um pesquisador italiano, Severino Antinori, anunciaram o objectivo de clonar um ser humano. Estes e quaisquer outros cientistas que desejem clonar seres humanos provavelmente utilizarão o mesmo procedimento que foi usado para criar a ovelha Dolly. Esta técnica de clonagem é chamada transferência nuclear da célula somática.

A transferência nuclear da célula somática tem início quando o médico tira o óvulo de uma doadora e remove o núcleo do óvulo. Fazendo isso, cria um óvulo desprovido de núcleo. Uma célula contendo ADN é então retirada da pessoa que está a ser clonada. Por meio de electricidade, o óvulo desprovido de núcleo é fundido com a célula contendo o ADN do ser humano que está a ser clonado. Forma-se então um embrião, que é implantado na “mãe de aluguer”, aquela que forneceu o óvulo. Caso o procedimento seja bem sucedido, a “mãe de aluguer” dará à luz à uma cópia exacta da pessoa clonada (de quem foi retirado a célula com ADN) ao fim de um período normal de gestação.

Este mesmo procedimento foi usado para criar a ovelha Dolly, em 1997. Ian Wilmut e os seus colegas do Instituto Roslin, em Edimburgo, na Escócia, transplantaram o núcleo de uma glândula mamária de uma ovelha Finn Dorsett num óvulo desprovido de núcleo de uma ovelha blackface escocesa. A fusão do núcleo ao óvulo foi realizada por meio de electricidade, que também resultou numa divisão celular. A nova célula, agora dividida, foi implantada no útero de uma ovelha blackface. Alguns meses depois nasceu a ovelha Dolly. É geneticamente idêntica à ovelha Finn Dorsett e não à blackface, que serviu de “mãe de aluguer”. A clonagem foi bem sucedida, mas foram necessárias 276 tentativas para criar a Dolly. A partir de então, desenvolveu-se e tornou-se apta a procriar de forma natural

A tabela abaixo explica como funciona a transferência nuclear da célula somática no processo de clonagem:

Os prós da clonagem humana

Nem toda a forma de clonagem humana envolve a criação de um ser humano completo. Em vez de replicar pessoas, o processo de clonagem pode ser usado para ajudar pessoas com problemas médicos graves. Por exemplo, os cientistas poderiam clonar as células de uma pessoa e “consertar” genes mutantes que causam doenças. Em Janeiro de 2001, o governo britânico sancionou leis permitindo a duplicação de embriões humanos com fins específicos na pesquisa das doenças de Parkinson e de Alzheimer.

Um dos propósitos da clonagem humana é a clonagem terapêutica, processo pelo qual o ADN de uma pessoa é utilizado para criar um embrião. Em vez de inserir este embrião numa “mãe de aluguer”, as suas células são usadas para produzir células-tronco que são capazes de evoluir para diversos tipos de células do corpo. Estas células-tronco podem, portanto, ser utilizadas para criar órgãos humanos, tais como corações, fígados e pele. Estas células-tronco também podem fazer crescer neurónios capazes de curar aqueles que sofrem de doenças como a de Parkinson, a de Alzheimer ou a síndroma de Rett.

Como funciona a clonagem terapêutica

1. O ADN é extraído de uma pessoa doente.

2. O ADN é então implantado no óvulo de uma doadora, desprovido de núcleo.

3. O óvulo então divide-se como uma fertilização típica e forma um embrião.

4. Células-tronco são removidas do embrião.

5. Qualquer espécie de tecido ou órgão pode ser formada a partir destas células-tronco para tratar o doente.

Para muitos cientistas, o verdadeiro milagre da clonagem é que este novo tecido humano pode ser desenvolvido em laboratórios para substituir partes do corpo doentes ou danificadas. Como estes órgãos seriam produzidos usando células-tronco do próprio paciente, não haveria mais riscos de rejeição do transplante pelo corpo da pessoa.

A clonagem humana também pode ser utilizada por casais que não conseguem ter filhos, mas que desejam ter filhos que possuam atributos biológicos de pelo menos um dos pais. Os cientistas que trabalham para clonar seres humanos – o Dr. Zavos e o Dr. Antinori, em particular – declararam que ajudar casais inférteis é o objectivo principal da sua pesquisa. Esta forma de clonagem envolveria a injecção de células de um homem estéril num óvulo, que seria implantado no útero da mulher. A criança seria então igual ao pai.

O propósito mais polémico da clonagem humana é o de replicar pessoas que já faleceram. Um casal norte-americano, que não se consola com a morte da filha, está a oferecer 42 000 euros para que um laboratório chamado Clonaid clone a filha falecida, utilizando células preservadas da sua pele. Se a morte é uma tragédia para a maioria dos seres humanos – tanto de pessoas como dos animais –, alguns vêem na clonagem uma forma de a amenizar, substituindo a pessoa ou animal de estimação por alguém exactamente com a mesma composição genética.

A clonagem de seres humanos tem um aspecto social e familiar. Muitos homens e mulheres desejam ter filhos biológicos sem estarem necessariamente casados. Os homossexuais, por exemplo, teriam a oportunidade de ter filhos que partilhem as suas características genéticas. Mas este argumento pode também ser considerado um aspecto negativo da clonagem. Pessoas que acreditam nos fortes valores familiares – que uma criança deve crescer com um pai e uma mãe – considerariam esta uma razão para banir a clonagem humana.

Os contras da clonagem

Foram necessárias 276 tentativas para a duplicação da ovelha Dolly. Recentemente, uma gata doméstica chamada Cc foi clonada, após 87 tentativas – menos do que no caso de Dolly, mas ainda apresentando uma baixa média de sucesso. Será que a sociedade permitiria a morte de tantos embriões e recém-nascidos até que a tecnologia da clonagem se aperfeiçoasse? O próprio Ian Wilmut disse que os projectos de clonagem humana são um crime irresponsável. A tecnologia de clonagem está ainda na sua fase inicial e quase 98% das tentativas de clones não têm sucesso. Os embriões geralmente não são adequados para serem implantados no útero ou morrem durante a gestação ou pouco antes do nascimento.

Os poucos clones que sobrevivem ao processo costumam não ter vida longa ou saudável. Normalmente têm problemas com órgãos como o coração, sofrem de sistema imunológico fraco e morrem pouco depois do nascimento. É quase certo que o mesmo venha o ocorrer com os primeiros clones humanos. As crianças poderiam morrer no parto, nascer com deficiências físicas e provavelmente faleceriam prematuramente. Pode a nossa sociedade permitir o sofrimento dos primeiros clones humanos para colher os benefícios quando a clonagem estiver aprimorada? Esta é provavelmente a questão mais difícil a respeito da clonagem humana.

Também existe a polémica de que a clonagem de seres humanos produziria bebés planeados. As crianças passariam a ser iguais a qualquer outra comodidade que adquirimos: tamanho, cor e outros traços seriam predeterminados pelos pais. O mistério da individualidade humana seria uma coisa do passado. Além disso, crianças que forem clones de pessoas que já faleceram poderão ser consideradas meramente a continuação da vida daqueles que já se foram.

Porém, deve lembrar-se que clonagem humana não significa ressurreição. Um clone pode ser idêntico a um ser humano clonado, mas isto não significa que são a mesma pessoa. Irmãos gémeos, por exemplo, são duas pessoas diferentes. Se um gémeo morresse, nenhum pai ficaria intocado porque uma pessoa fisicamente idêntica permanece viva.

Muitos acreditam que a criação de vida é um assunto exclusivo do Criador. Acreditam que a vida é uma dádiva divina, que deveria estar além dos poderes humanos. A Igreja acredita que a alma é criada no momento da concepção, e por isto o embrião merece protecção. Para aqueles que concordam com a Igreja, a tecnologia não aperfeiçoada da clonagem significa assassinato em massa.

Quando a possibilidade de duplicar seres humanos foi anunciada, muitos temeram que terríveis figuras da nossa história seriam trazidas de volta à vida. Mas, a não ser que acreditemos que o mal está presente no gene de uma pessoa, este não é um motivo de preocupação. Como discutimos acima, a clonagem somente duplica o corpo, não necessariamente o carácter ou personalidade de uma pessoa. A mesma pessoa não voltaria ao mundo, mas alguém fisicamente idêntico seria criado.

A clonagem de seres humanos pode causar graves efeitos nos nossos relacionamentos familiares. Um pai pode ter um filho idêntico a si e estar feliz com o facto, mas como é que isso afectará a relação entre filho e mãe? Ele crescerá e ficará igual ao pai – o homem pelo qual ela se apaixonou e com quem se casou. O mesmo também vale para uma filha que nascesse fisicamente idêntica à mãe. Como isso afectaria o seu relacionamento com o seu pai? Ao analisarmos os prós e contras da clonagem humana, temos de pensar como esta afectaria outras pessoas na nossa sociedade. Outro exemplo: um casal tem um filho clonado igual ao pai e o casal acaba por se divorciar. A esposa agora odeia o ex-marido, mas o filho é fisicamente idêntico ao homem que ela menospreza. Como irá isso influenciar o seu relacionamento?

Conclusão

Neste artigo tentámos abordar o processo da clonagem humana. Também apresentámos alguns argumentos a favor e contra o processo. Existem muitos outros aspectos – científicos, morais e religiosos – a analisar. O núcleo da questão é saber se os seres humanos estão preparados para lidar com esta nova tecnologia, que pode ser uma grande fonte de benefícios ou malefícios para a humanidade. Todos nós devemos analisar as possíveis consequências da clonagem humana, pois esta é, sem dúvida, uma das mais controversas e revolucionárias novidades da nossa história.

Adaptado de 10 em tudo

http://www.10emtudo.com.br/imprimir_artigo.asp?CodigoArtigo=17&tipo=artigo

2

VALE A PENA CLONAR?

Pode ser verdade que quando se tira o núcleo de um adulto esses cromossomas têm uma história gravada de modo que quando se faz um novo ser esse ser tenha a sua idade mais a idade anterior. O que traz condições para o tipo de Clonagem que se faz: ninguém vai fazer um outro ser humano a partir de uma célula de uma pessoa que já tem 50, 60 ou 70 anos.

Alexandre Quintanilha (2002), in Jorge Massada, Vale A Pena Ser Cientista? voI. 1, Porto, Campo das Letras, p. 42.

NÃO HÁ RAZÃO PARA ALARME

Eu acho que há muito pouca gente que queira mesmo clonar humanos, sobretudo quando perceberem uma coisa: o clone de uma pessoa nunca vai ser uma pessoa igual a ela. Vai ser parecida fisicamente mas muito pouco mais do que isso. O problema ético não é novo, já o tínhamos com os gémeos. Os gémeos verdadeiros são clones um do outro. E, como sabe, apesar de os gémeos serem habitualmente educados de maneira idêntica, de serem vestidos de igual, de terem uma vida que do ponto de vista biológico é muito semelhante, de muitas vezes terem as mesmas doenças (mas nem sempre, a propósito), também são pessoas diferentes, às vezes muito diferentes. Ou seja, muito do que nós somos é epigenético, não só pela educação, pelas experiências vividas, mas também porque coisas importantes no formar do nosso corpo não são hardwired nos genes. Por exemplo, as trajectórias dos neurónios no cérebro, os contactos que estabelecem entre si, são estocasticamente estabelecidos, ou seja, um clone meu teria, à partida, um cérebro fisicamente distinto do meu. Como daqui vai depender o impacto e interpretação das diferentes experiências no estabelecimento da personalidade, é evidente que o clone será psicologicamente muito diferente do original.

Ora, se alguns dos passos importantes na construção do nosso corpo ocorrem “ao acaso”, a possibilidade de repetir exactamente o mesmo indivíduo é zero. Por esta razão, a clonagem não é uma coisa que me aflija demasiado. Evidentemente seria muito deprimente chegar ao café e ver toda a gente com a mesma cara. Mas nunca me preocupou que alguns tentassem repetir indivíduos, porque em biologia não há essa possibilidade. Esta é, de resto, a grande beleza da biologia quando comparada, por exemplo, com a Física: um átomo de hidrogénio é igual a qualquer outro átomo de hidrogénio, mas qualquer ser vivo é diferente dos outros todos. E depois, outra coisa que poucas pessoas sabem: para cada “clone” é sempre necessário encontrar uma mãe…

Resposta de António Coutinho a uma entrevista (2002), in Jorge Massada, Vale A Pena Ser Cientista?, voI. 1, Porto, Campo das Letras, pp. 77-78.

3

Admirável mundo novo

Ninguém sabe se alguma vez se fez uma clonagem de um embrião humano, tornando a implantar as duas metades no útero de uma mulher e dando origem, artificialmente, a dois gémeos. O processo é fácil e talvez tenha sido feito mas não se sabe. Quanto à clonagem de seres humanos adultos, que se saiba, nunca foi feita. Mas, depois da clonagem de uma ovelha adulta, a proeza parece possível. Será admissível? Nos últimos dias, a reacção à possível clonagem de seres humanos traduziu-se num gigantesco uníssono horrorizado. Decidimos traçar alguns cenários – que parecem tecnicamente possíveis a curto prazo – para mostrar o que poderá ser a clonagem de seres humanos.

Admirável Mundo Novo – 1

Objectivo

Clonagem de indivíduos famosos já desaparecidos, para fins comerciais ou políticos

Vantagens e dificuldades

É difícil compreender quais seriam as vantagens de um programa deste tipo – para além da obtenção de um enorme impacto mediático, se estas acções fossem conhecidas do público.

De facto, não é possível prever as qualidades de alguém e menos ainda a sua personalidade e os seus sentimentos por muito bem que se conheça o seu património genético. Aquilo que somos e fazemos depende muito mais da nossa história que da nossa herança genética.

A clonagem de uma pessoa permite obter alguém que é fisicamente muito parecido com a pessoa original, mas não garante mais do que isso. A realidade é que nem sequer se sabe em rigor quão parecido seria um clone com o seu original, já que os únicos clones humanos que conhecemos, os gémeos verdadeiros, são provavelmente idênticos não só porque têm um genoma igual, mas também por terem sido gerados por uma mesma pessoa em condições idênticas. Sabe-se que é necessário que duas pessoas sejam geneticamente idênticas para serem fisicamente iguais (os gémeos não verdadeiros podem ser bastante dissemelhantes) mas não se sabe se essa condição é suficiente.

Ou seja, tudo o que a clonagem de células de Hitler, de Einstein ou de Marilyn permitiria obter seriam sósias de Hitler, de Einstein ou de Marilyn se fosse possível encontrar células de algum deles com um ADN íntegro e intacto, se se encontrasse uma mãe hospedeira o que não parece difícil e se alguém tivesse paciência para esperar os 30 anos necessários para que o sósia se parecesse de facto com o seu original – o que é mais improvável. É altamente improvável que um sósia de Hitler fosse tão desumano como ele, que um sósia de Einstein fosse tão inteligente como ele e que uma sósia de Marilyn fosse tão atraente como ela. Mas, ainda que isso acontecesse, as condições concretas da sua vida não lhes permitiriam repetir a história. Hitler, se vivesse hoje, não poderia ser Hitler. Einstein casou-se em primeiras núpcias com Mileva Marie, que foi uma das físicas teóricas mais brilhantes do início do século.

Mileva participou nos trabalhos do marido, que levaram ao enunciado da teoria geral da relatividade – há mesmo quem defenda que é dela a maior parte do trabalho -, tendo dado à luz dois filhos que pareciam ter à partida todas as condições genéticas para serem brilhantes. Um deles, no entanto, era um doente mental que viria a morrer num hospital psiquiátrico.

E alguém poderá sonhar que Hitler teria existido sem o Tratado de Versalhes e a recessão económica de 1929? E que Marilyn poderia ter existido sem o star system dos anos 50?

Os clones poderiam ser curiosidades interessantes – como o foram os filhos de Einstein ou os de Estaline – mas não poderão repetir a História e nada indica que tenham condições para serem tão extraordinários como os indivíduos que lhes dariam origem. Existem alguns problemas legais para levar a ideia a cabo. Se o ADN de Marilyn existisse nalguma célula de um dos seus ossos, seria necessário autorização dos seus herdeiros legais e do Estado para o utilizar.

Seria necessário que houvesse uma verdadeira cabala que envolvesse herdeiros, Estado e um empresário de circo disposto a esperar 20 ou 30 anos por um retorno duvidoso deste investimento para que a clonagem se fizesse.

Finalmente – e isto constitui a principal falha dos cenários de pesadelo sobre a clonagem – caso esse clone fosse obtido, ele seria sempre um ser livre e o seu criador não teria sequer sobre ele/ela os direitos que os pais têm sobre os filhos. Será que alguém estaria disposto a investir uma fortuna e imensos anos para produzir um clone de Marilyn na esperança que ela fosse tão magnética como o original e se deixasse exibir como uma curiosidade de feira? Ou para produzir um clone de Hitler, correndo o risco de que ele se revelasse um defensor da democracia? Ou um clone de Einstein que se viesse a revelar débil de espírito? É mais barato contratar sósias ou tentar educar alguém para que se torne um génio da física.

Questões éticas

Do ponto de vista ético, este cenário levanta evidentemente problemas. Antes de mais, a simples criação de um ser com o premeditado propósito de o explorar comercial ou politicamente é claramente inaceitável. Quando se trata de produzir alguém que carregaria, para mais, a pesada herança histórica de um daqueles indivíduos, é evidente que estamos a condicionar de uma forma particularmente violenta a sua vida – quanto mais não seja pelas associações de ideias que iria permitir a seu propósito. É difícil defender de uma tal clonagem seria feita em benefício de alguém.

 

Admirável Mundo Novo – 2

Objectivo

Clonagem de indivíduos ainda vivos com capacidades particulares (desportistas, prémios Nobel)

Vantagens e dificuldades

É de crer que os clones de Cari Lewis ou de Michael Jordan tivessem características físicas semelhantes às dos originais e, por isso, a clonagem parece ser razoável nestes casos, se isso é tudo o que se pretende. Caso os próprios Lewis e Jordan estivessem de acordo, seria possível clonar as suas células, esperar uns anos… e obter a melhor representação olímpica de sempre e a melhor equipa de basquetebol do mundo. É duvidoso, porém, que estes atletas — ou outros — gostassem de ter um “filho/clone” que estivesse con­denado, desde logo, a seguir as pisadas do pai. As revoltas contra o criador não surgem apenas no caso dos Frankensteins, podem ser classicamente edipianas.

Quanto a clonar um prémio Nobel, nada garante que o intelecto do clone tenha as características do original. O cérebro parece ser moldado muito mais pela experiência que pelos genes.

Questões éticas

Clonar alguém para que esse indivíduo preencha uma determinada função pré-definida é algo que atenta de uma forma inaceitável contra um direito fundamental: o direito de cada ser moldar o seu próprio futuro. É por isso que estes cenários de pesadelo para a clonagem não são compatíveis com os princípios das sociedades democráticas. Seria preciso combinar a clonagem com alguma forma de escravatura para que estes planos pudessem ser levados a cabo.

Elixir da juventude Objectivo

Clonagem para obtenção de embriões que possam ser usados como fornecedores de órgãos para os seres clonados.

Vantagens e dificuldades

É possível imaginar um cenário em que um milionário decide produzir uns quantos clones de si próprio, para em seguida congelar os embriões assim obtidos. Os embriões poderão ser usados em caso de necessidade, como fornecedores de “peças”. A vantagem? Os clones são genericamente idênticos ao original e, portanto, os órgãos não irão apresentar quaisquer problemas de incompatibilidade. Seria como usar os seus próprios órgãos.

Os rins deixam de funcionar? Pode implantar um embrião numa “barriga de aluguer”, deixar que ele se desenvolva até surgirem as células precursoras dos rins e implantar estas células, que poderão – graças ao futuro desenvolvimento da tecnologia – dar origem a um órgão inteiro. Num cenário mais macabro, é igualmente possível produzir de facto um ser apenas para lhe extrair órgãos ou tecidos (sangue, medula óssea, células cerebrais). É um cenário de ficção que poderá não estar longe, tanto mais que, à medida que a população vai envelhecendo, se vão multiplicando as doenças degenerativas, da artrite reumatóide ao Alzheimer e ao Parkinson. Algumas células previdentemente postas de parte podem permitir um banho de juventude ou a cura de algumas destas doenças. A injecção de células fetais (oriundas de fetos abortados) no cérebro de doentes com parkinson é uma das esperanças de cura desta doença. Se se tratar de células colhidas num clone, igual ao doente mas 70 anos mais novo, as possibilidades de êxito podem ser substancialmente maiores.

Questões éticas

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Este é um cenário de terror por excelência, aquele que, segundo muitas opiniões conjuga o total desrespeito pelo ser humano, o egoísmo mais total e se traduz em homicídio planeado a frio. Mas há argumentos que podem ser avançados em sua defesa: não seremos donos das nossas próprias células? Haverá uma diferença tão grande em fabricar um embrião para extrair um órgão e fazer uma cultura de células num laboratório para as voltar a injectar em

nós próprios? O que dizer, para mais, se isto tiver lugar num país onde o aborto é livre até às x semanas? Será possível nesse caso proibir a clonagem, o desenvolvimento de um embrião, a interrupção do seu desenvolvimento e o uso das células? Será isto tão diferente de colocar o sangue ou o esperma num banco para o usar em caso de necessidade?

Clone  para  salvar uma vida

| Objectivo

Clonagem de uma pessoa doente para produzir um órgão que lhe pode salvar a vida Vantagens e Dificuldades

Parece tratar-se de um cenário semelhante ao anterior, mas o décor é tão diferente que transforma o enredo de uma forma substancial. É relativamente frequente que um casal com um filho com leucemia que precisa de uma transfusão de medula óssea tenha um segundo filho para conseguir dessa forma um dador compatível (a medula óssea extrai-se com uma seringa de um dos ossos ilíacos). O melhor dador é um gémeo, mas nem sempre uma criança com leucemia tem um irmão gémeo. A clonagem permite obter um “gémeo mais novo” da criança doente, que será um dador ideal de medula.

Questões éticas

Em teoria este cenário levanta grandes objecções éticas, pois trata-se da produção de um ser humano para um fim utilitário específico. No entanto, seria difícil condenar os pais que tomassem essa atitude. Aqui, o clone existe por uma razão precisa e lógica mas a sua liberdade futura está em causa. É difícil dizer que a sua geração é um gesto desumano e é mesmo possível colocar a questão ao contrário: seria admissível que os pais da criança com leucemia, podendo produzir um dador ideal de medula óssea, para o seu filho, não o façam? Será que esse dados – pelo facto de ser um gémeo do doente – será menos amado do que se fosse um irmão não gémeo?

O clone do além: a reencarnação

Objectivo

Clonagem, por razões afectivas, de indivíduos mortos.

Vantagens e dificuldades

Tudo o que poderá ser necessário para clonar um indivíduo é uma célula com um ADN inteiro e em bom estado – ainda que, na prática, para conseguir uma célula nestas condições seja preciso escrutinar umas centenas ou uns milhares de células. Sendo assim, nada exige que o indivíduo em questão esteja vivo. Basta que existam – congeladas, por exemplo, ou escondidas algures no interior de um dos seus ossos – umas quantas células em bom estado.

Trata-se de uma verdadeira reencarnação dos genes. Metidos num ovo, metido num útero, os genes fabricarão à sua volta a sua nova carne, um novo indivíduo, com um aspecto igual ao/à desaparecido/a. Poderá não servir de nada clonar Einstein, mas não seria agradável clonar a avó Alzira?

O cenário pode surgir por outras razões que não a procura do exotismo. Uma viúva pode achar que essa é a única maneira de perpetuar o seu marido morto, que não chegou a ter o filho que queria. Um casal cujo filho morreu e que pode ver-se impedido por razões médicas de ter mais filhos, não sentirá a tentação de clonar o seu filho, se o puder fazer? Afinal, seria como um gémeo.

Questões éticas

Obrigar alguém a viver num corpo predefinido é negar-lhe originalidade a que todos temos direito mas, afinal, não nascemos todos num espartilho genético? Não temos o nariz do avô, as mãos da mãe, os olhos do pai e até as doenças da família, que dispensaríamos com alegria? Terá importância se um clone é um pouco mais parecido com o original do que um filho com o pai? Terá a pessoa que nasce de um clone a sensação de não estar a estrear a vida, de viver em segunda mão? Não é isso que acontece já, quando um casal tem um segundo filho para ocupar o lugar de outro que morreu? A solução poderá ser chocante para os outros mas, no caso, ficcional, de pais que decidam clonar um filho morto, não sentirão que estão a fazer o que podem (o que devem) para dar uma segunda oportunidade à mesma vida?

O meu filho – 1 Objectivo

Ter um “filho” geneticamente igual a si próprio/a, sem a contribuição genética do outro sexo.

Vantagens e dificuldades

Um homem terá sempre necessidade de uma mulher quanto mais não seja como “barriga de aluguer” para gerar o seu clone, mas uma mulher pode perfeitamente gerar o seu clone praticamente sozinha. Vantagens?

Além da originalidade do caso, não é de excluir a possibilidade de que alguém seja suficientemente presunçoso para pensar que os seus genes devem ser preservados na íntegra e não apenas em parte, mas também pode acontecer que, num casal, um dos elementos tenha uma doença genética grave e não queira correr o risco de a transmitir a eventuais filhos. Porque não excluir essa possibilidade através da clonagem? Imagine-se que a portadora da doença em questão seja a mulher. O homem pode contribuir com o ADN e a mulher pode encarregar-se da gestação – um filho dos dois, com os genes de um só. Se a clínica for discreta, quem irá desconfiar de algo anormal só porque o filho é a cara do pai?

Questões éticas

Se o objectivo for ter um/a filha sem qualquer contribuição do outro sexo, a condenação é fácil já que se aceita que uma criança tem direito a ter dois pais e a viver com ambos – é com base neste princípio que se costuma excluir pessoas solteiras de protocolos de inseminação artificial, fertilização “in vitro” e adopção. Mas se os dois pais existirem em termos sociais, terá importância que os genes sejam apenas de um, principalmente se houver razões médicas para isso? É difícil considerar este caso eticamente inaceitável, a não ser com base uma posição de princípio contra a clonagem.

O meu filho – 2

Objectivo

Um monarca estéril decide clonar-se para garantir o domínio da sua descendência

Vantagens e dificuldades

Para alguém com o poder de um monarca, as dificuldades práticas seriam facilmente ultrapassáveis e as vantagens, neste caso, evidentes. Há, no entanto, uma questão legal: não está definido o que é um clone. Do ponto de vista legal, terá um clone direito a herdar os bens e prerrogativas do seu original? A resposta simples é que sim: se alguém que herdou metade do património genético de outro tem esse direito por que razão não o teria alguém que herdou todo o património genético dessa pessoa?

Questões éticas

Levantam-se aqui as mesmas questões que noutros casos: a existência de um “projecto” para o futuro ser, que limita a sua liberdade. Mas quantas pessoas não têm um filho e o condicionam de todas as formas possíveis para que seja médico ou futebolista?

Um clone que não é clone

Objectivo

Clonagem de um embrião humano devido a uma deficiência

Vantagens e dificuldades

Há casos de casais inférteis onde não existe nenhum problema genético mas existem deficiências ao nível do citoplasma do óvulo. O casal A pode fertilizar um óvulo pelo agradável processo clássico, esse óvulo fecundado pode ser colhido, cultivado até ao estádio de embrião e, seguidamente, pode ser extraído o ADN de uma das suas células (que é uma mistura do ADN do senhor A e do da senhora A). Depois, esse ADN pode ser inserido num óvulo de outra mulher e esse óvulo reimplantado no útero da senhora A

Tudo o que acontece é que o ovo tem outro citoplasma à volta, mas, tecnicamente, trata-se de uma clonagem. Uma clonagem não de um ser adulto mas de um embrião. O resultado será um clone… mas que não tem original.»

 

 

Questões éticas

Difícil levantar reticências a esta prática, que já foi apresentada como exemplo de uma clonagem eticamente inatacável. De facto, trata-se mais de uma transplantação de citoplasma que de uma clonagem. Não há original e cópia neste caso, que é o que torna a clonagem tão repugnante para a nossa sensibilidade.

JOSÉ VÍTOR MALHEIROS

Público, Julho de 2003

 

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